Alemanha prepara Plano Marshall para África

Por Isabel Lourenço / Jornal Tornado

Nos últimos 12 meses cristalizaram-se e tornaram-se públicos os interesses económicos do Ocidente em África, desta vez pela mão da Alemanha.

Na senda de busca de mais mercados e controle de recursos naturais, mais uma vez África está na Ribalta dos interesses do Ocidente.

Trump disse no início de 2016 que a África devia ser recolonizada para ajudar a civilizá-la, e no final de 2016 a Alemanha anuncia um “Plano Marshall” para “resgatar a África” e reduzir os fluxos de migrantes para a Europa.

Após séculos de colonialismo, este continente foi assolado por guerras civis e conflitos na sua maioria com o apoio dos ex-colonizadores desta ou daquela fracção.

O mergulhar do continente num pântano de corrupção é noticia de primeira de página, por outro lado pouco ou nada se fala das conquistas positivas e dos países que alcançaram estabilidade e desenvolvimento económico e social.

“O meu crime é ter um país rico”

Sidi Abdallahi Abahah, preso político saharaui e dirigente de uma organização de emigrantes saharauis, disse: “o meu crime é ter um país rico” , aludindo ao facto de Marrocos ocupar o Sahara Ocidental devido aos lucros fabulosos que obtém deste território que ocupa ilegalmente desde 1975 e cuja população é vitima de repressão absoluta e um apartheid político, social e económico.

E é esse o drama de África, as suas riquezas, o berço da humanidade, que é saqueado pelo ocidente há séculos e agora também pela China.

Plano Marshall para África

O ministro do Desenvolvimento da Alemanha disse que os países desenvolvidos devem dar um impulso econômico maciço às nações africanas para criar empregos e retardar o fluxo de refugiados para a Europa, o “Plano Marshall com a África” – assim designado como um paralelo histórico para o investimento dos EUA na Europa Ocidental após a Segunda Guerra Mundial. O novo programa centrar-se-á na juventude, na educação e na formação e no reforço do Estado de Direito, afirmou Mueller.

No entanto a atribuição das “ajudas” do plano estarão dependentes de mostrar boa vontade e desenvolvimento em áreas como os direitos humanos por exemplo. Como se vai avaliar estes “desenvolvimentos” está claro como água, se olharmos para o exemplo do Reino de Marrocos que cria Ministérios de Direitos Humanos, tem o Ministério da Justiça e Liberdades e o Conselho Nacional de Direitos Humanos, tudo mecanismos de estado controlados com mão de ferro e que existem para erradicar por completo qualquer avaliação independente, chegando o reino alauita ao cúmulo de expulsar a Amnistia Internacional e Human Rights Watch, de Marrocos e nos territórios ocupados do Sahara Ocidental o isolamento é total. A liberdade de imprensa é inexistente havendo represálias imediatas e graves para qualquer jornalista que diga Sahara Ocidental em vez da terminologia do estado “Sahara Marroquino”.

Marrocos, o país ensaio

Cito este exemplo porque é aí que a Alemanha está a fazer o seu ensaio, com um investimento nas energias renováveis, que é por muitos classificado como “Green Washing” (lavagem de dinheiro/negócios/intenções com a capa da ecologia). Também aqui o marketing leva a aplaudir o facto de Marrocos abolir o saco plástico, mas esquece-se de referir que ao mesmo tempo recebe toneladas do lixo plástico da Europa. Ao mesmo tempo a União Europeia atribui milhares de milhões a Marrocos para “modernizar e reforçar” justiça e direitos humanos, sendo que estes fundos são de imediato absorvidos pela máquina estatal sem qualquer melhoria visivel.

Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, indicou como enviado especial para o Sahara Ocidental Horst Koehler, ex-presidente da Alemanha, ex-director do FMI, um dos pais de Mastricht e um dos apoiantes deste Plano. Koehler teve que demitir-se do cargo de presidente do seu país por ter afirmado que a economia alemã tinha muito a ganhar com os conflitos (referindo-se ao envolvimento no Afeganistão).

Em qualquer caso, de acordo com os seus redactores, o Plano Marshall para África concentrar-se-á no comércio justo, no aumento do investimento privado, no desenvolvimento económico de baixo para cima, no empreendedorismo e na criação de emprego. Embora enfatizando o desenvolvimento africano, o governo alemão não ignorou as oportunidades que as economias africanas de rápido crescimento apresentam às empresas alemãs. Müller lamentou: “Não podemos deixar a África para os chineses, russos e turcos”. Sem fornecer informações específicas, o plano prevê uma mudança no financiamento do desenvolvimento para alavancar capital privado:

O financiamento público pode ser usado para impulsionar directamente o investimento privado em África… Cada euro da receita tributária pode alavancar muitos mais euros em capital privado. E, em seguida, investir torna-se atraente, mesmo para grandes investidores institucionais, como companhias de seguros ou fundos de pensão “  (Müller)

As intenções alemãs

A Alemanha justifica as suas intenções perante os europeus com o fantasma da emigração em massa: “Se os jovens da África não conseguirem encontrar trabalho ou futuro nos seus próprios países, não serão centenas de milhares, mas milhões que se dirigem à Europa”, técnica de instaurar o medo, manipulação de informação e criação de correntes de opinião.

Será que África, o continente da riqueza e abundância, necessita de mais “ajudas” de quem o saqueou durante centenas de anos ou necessita de aproveitar e administrar os seus próprios recursos, e retomar algumas das tradições milenares, reencontrar as suas raízes e cultura e traçar um caminho novo?

O continente mais velho é também o mais jovem, o mais pobre e o mais rico, um sem fim de contradições e uma manta de retalhos de países e culturas diferentes com dinâmicas e realidades muitas vezes tão opostas como a cultura Portuguesa da Chinesa. Um manancial de religiões, tradições e estruturas sociais que não se podem classificar da mesma forma.

África é dos africanos – o paternalismo colonialista bem ou mal intencionado deve ser erradicado de uma vez por todas.

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