Carta aos professores espanhois de visita a El Aaiun

Hmad Hamad escreve aos professores da época colonial espanhola:

Queridos Professores,

Escrevo esta carta porque não consigo expressar o que sinto sem que as lágrimas marejam os meus olhos.

Queria dar-vos as boas vindas de braços abertos e um sorriso no rosto, eram essas a boas vindas que merecem aqueles que nos transmitiram saber e participaram na nossa formação, não apenas académica mas como seres humanos.

Gostaria de dar-vos as boas vindas ao lado dos meus colegas e amigos e recebe-los nas nossas casas onde as nossas mães lhes poderiam agradecer todo o vosso trabalho e dedicação.

Infelizmente essas não são as boas vindas que posso dar. Não vós posso dar as boas vindas ao lado dos meus colegas e amigos porque após a vossa partida, e após o abandono de Espanha, Marrocos entrou e ocupou à força o Sahara, matou, assassinou, sequestrou e encarcerou os vossos alunos, meus amigos e colegas.

Muitos deles faleceram, desapareceram ou definharam nas masmorras marroquinas. Assim como eu fui detido e torturado quase até à morte, assim foi o destino de muitos deles.

Aquelas caras sorridentes, de jovens com todo o seu futuro à sua frente e cujas mentes ajudas-te a formar, desapareceram. Essas caras já não existem, os sorrisos e o futuro foram-lhes arrancados por Marrocos, o Reino do Terror.

E como posso eu dizer às mães destes meus amigos e colegas, que aqui em El Aaiun ocupado, estão de visita os professores espanhóis? Não posso. Estas mães choram há 43 anos, há 43 anos que as lágrimas molhadas ou secas não abandonam os seus olhos e os seus corações, choram os seus filhos. Como posso eu então dizer-lhes que os seus professores estão aqui em El Aaiun ocupado, a dormir em hotéis, a comer em restaurantes a passear pelas ruas de El Aaiun ocupado, enchendo os bolsos dos assassinos dos seus filhos? Cada cêntimo que gastam, Marrocos utiliza para nos oprimir e roubar.

Estas não são as boas vindas que vos queria dar.

As boas vindas que vos queria dar são me proibidas até ao dia em que o Sahara seja independente.

E peço vos que quando passearem por El Aaiun recordem o passado, mas mais importante que isso vejam o presente: uma cidade ocupada, onde os assassinos dos vossos alunos se sentam como reis ao vosso lado nas esplanadas.

Onde os carrascos dos vossos alunos atormentam, perseguem e torturam os seus filhos e netos, irmãs, filhas e netas.

Peço-vos que vejam e que não regressem em silêncio, mas que em nome dos vosso alunos possam contar esta injustiça ao vosso povo, ao vosso governo que nos abandonou e nos entregou como se fossemos mercadoria ao Rei de Marrocos.

Lembrei-vos das nossas caras. Lembrei-vos dos nossos sonhos e anseios.

Me despeço pedindo-vos que regressem quando o chão que pisarem no Sahara não esteja ocupado.

Com estima e consideração,

Hmad Hamad