Refugiados saharauis no bloqueio COVID-19 atingidos por epidemia de gado

Refugiados do Sahara Ocidental em campos na província de Tindouf, na Argélia, perdem animais devido à epidemia de gado, enquanto as restrições ao coronavírus acabam com outros meios de subsistência.

unhcr.orgPor Russell Fraser e Yamina Djoudi | 1 de setembro de 2020TINDOUF, Argelia

TINDOUF, Argélia – Num intervalo das suas tarefas diárias, Mariem Mohamed Boujemaa – uma refugiada saharaui de 69 anos que mora no campo de Boujdour, na província de Tindouf, na Argélia – costumava fazer uma pausa para ver os seus netos a brincar com as ovelhas e cabras da família, empoeiradas, cercadas por arame, e sentir uma profunda conexão com o seu próprio passado.

“Criar ovelhas e cabras para a minha família é algo herdado de uma geração para a outra”, explicou Mariem. “Os saharauis são conhecidos pela criação de gado. Se uma família tem quatro ou cinco cabras, tem uma fonte inesgotável de leite para as crianças e os idosos.”

Mariem reconectou-se com a tradição e começou a criar o seu próprio gado há cerca de 10 anos, depois do seu divórcio. “Senti que precisava fazer algo para enfrentar os custos crescentes e a responsabilidade de cuidar da minha família”, disse ela. “Vendemos uma ou duas cabras para ter dinheiro para cobrir as nossas necessidades diárias.”

Boujdour é um dos cinco campos de refugiados estabelecidos na remota região desértica do sudoeste da Argélia desde 1975 que abrigam refugiados saharauis que fugiram da violência da Guerra do Sahara Ocidental. Para aqueles que têm condições de criar gado, o leite e a carne que fornecem ajudam a complementar a ração básica mensal de alimentos que os refugiados nos campos recebem.

“A perda foi financeira e emocional.”

Mas no início deste ano, enquanto os campos estavam a ser fechados em resposta à pandemia COVID-19, resultando na perda para muitos refugiados dos seus empregos e outras fontes de renda, outra doença estava a devastar a vulnerável população de refugiados.

Uma epidemia pulmonar que afeta o gado resultou na morte de mais de 1.700 ovelhas e cabras nos campos este ano, incluindo todos os dez animais de Mariem. “As ovelhas ficaram doentes depois de serem infectadas pela cabra. Liguei para o veterinário que lhes deu algumas injeções, mas mesmo com o tratamento todos morreram.”

Além do golpe financeiro, ela disse que os jovens membros da sua família tiveram dificuldade em compreender o que aconteceu.

“As crianças ficaram tristes com a perda”, disse Mariem. “Eles não entenderam por que todas as ovelhas e cabras morreram ao mesmo tempo. A perda foi financeira e emocional para a família.”

Algumas das famílias que perderam os seus animais tinham-nos recebido recentemente como parte de um programa financiado pelo ACNUR, a Agência de Refugiados da ONU, que visa alguns dos refugiados mais vulneráveis ​​nos campos.

“A maioria … que estava a trabalhar perdeu o seu salário diário.”

Com mais de 50 por cento das mulheres em idade reprodutiva e crianças nos campos sofrendo de anemia, e altas taxas de desnutrição (7,6 por cento) e baixa estatura (28 por cento), a ACNUR em colaboração com o seu parceiro, o Crescente Vermelho da Argélia, forneceu cabras a 263 famílias com desnutrição, principalmente aquelas com mulheres grávidas e lactantes.

Uma das beneficiárias foi Dida El Kouri, mãe de nove filhos que dependia do leite para complementar a sua dieta e também a dos seus pais idosos.

“Eu planeava beneficiar também da sua carne, mas infelizmente não alcançamos esse etapa, pois as perdemos [ao mesmo tempo] com a pandemia de COVID-19”, disse Dida. Ela acrescentou que as medidas de bloqueio tiveram um impacto negativo nas finanças e na saúde mental dos refugiados no campo.

“A maioria dos jovens e dos homens que trabalhavam perdeu o seu salário diário porque não podem ir a lugar nenhum e não podem fazer nenhum trabalho”, disse ela. “As crianças estão aborrecidas e deprimidas por ficarem dentro de casa o tempo todo.”

Outra beneficiária do esquema, Lehdia Aoubaid El Bachir, de 39 anos, estava grata como mãe que amamentava pela melhoira na sua nutrição e ficou “de coração partido” quando perdeu os dois animais para a doença do gado.

Lehdia que se descreve como uma amante dos animais e se lembra de ter acompanhado a sua mãe quando criança para alimentar e brincar com as ovelhas e cabras de sua família. Ter as suas próprias ovelhas era uma fonte de conforto, e ela considerava os animais parte da família.

“Senti o amor deles cada vez que ia alimentá-los ou verificá-los. Eu sentia-me responsável por eles e pela sua saúde e nutrição”, explicou ela.

Sem outra fonte de renda, a epidemia deixou muitas famílias no campo mais dependentes do que nunca da ajuda humanitária, disse Lehdia. Mas com as restrições de bloqueio agora finalmente estão a ser amenizadas – com viagens entre os campos e de e para a cidade de Tindouf possível desde junho – ela espera que a situação melhore.