Dra. Raabub Mohamed: “A nossa tarefa é quebrar o silêncio e não deixar que o mundo se esqueça dos saharauis e do seu direito inalienável à sua pátria”

PUSL – Jornal Tornado .- A Dra. Raabub Mohamed Lamin, é médica e saharaui, numa entrevista ao PUSL e o Jornal Tornado, fala-nos da sua realidade enquanto mulher, mãe, médica e saharaui e da luta pela independência do seu país. Nasceu no Sahara Ocidental, cresceu nos campos de refugiados, estudou em Cuba e viveu e trabalhou em Portugal e Espanha. Uma verdadeira filha das Nuvens como se chamam os saharauis, uma nómada não por opção mas pelas exigências da vida de um povo sob ocupação.

Fala-nos da política de extermínio dos saharauis praticada pelo Reino de Marrocos.

– Dra. Raabub onde nasceu? Como foi para os campos de refugiados no sul da Argélia? 

Nasci no Sahara Ocidental, na parte que agora está ocupada por Marrocos. Tinha cerca de um ano de idade quando Marrocos invadiu o Sahara Ocidental em 1975. A população saharaui teve que fugir, começou o êxodo.

Eu atravessei o deserto ao colo dos meus pais, centenas de km até chegarmos perto de Tindouf no sul da Argélia onde se começaram a construir os campos de refugiados. Mas antes chegarmos à fronteira com a Argélia, os marroquinos começaram a bombardear a população civil que estava em fuga. O objectivo era um e só um, o extermínio dos saharauis. Muitos saharauis morreram, muitos desapareceram, outros ficaram gravemente feridos.

Aqueles que conseguiram chegar aos locais onde agora estão os campos de refugiados, estavam em péssimas condições físicas e psíquicas. Não só as semanas de fuga, como também a fome e sede que tiveram que suportar, o medo constante e as bombas a cair, as perdas de entes queridos.

Nos campos de refugiados vivemos no meio de nada, tivemos que construir e reinventar o nosso espaço, com pouco ou quase nada conseguimos organizar-nos e ir crescendo. Pouco a pouco chegou alguma ajuda internacional.

– Os marroquinos e o governo marroquino afirmam publicamente que não invadiram o Sahara Ocidental, mas que foram “libertar” os saharauis, que a invasão “marcha verde” foi pacífica e apenas com colonos, o que pensa sobre esta afirmação? 

(Raabub ri)  Acreditar naquilo que dizem os marroquinos é realmente não acreditar em nada. Os marroquinos invadiram o Sahara Ocidental, isto é um facto, não é algo que nós inventamos, a ONU é testemunha disto, assim como a comunidade internacional. Espanha é testemunho disso. Marrocos e o Sahara Ocidental são dois países completamente diferentes apesar de serem vizinhos. Temos cultura, idioma, sociedade, tradições, modo de vestir e história diferentes. Marrocos foi colonizado por França, nós por Espanha.

Os factos são claros, desde 1975 até hoje os marroquinos nunca quiseram “libertar” ninguém, têm um só objetivo:  o extermínio total da população saharaui.

Começaram com os bombardeamentos da população em fuga para exterminar os saharauis, em seguida construíram o maior muro de separação militar em funções com 2720 km de extensão que divide o Sahara Ocidental, altamente fortificado e equipado militarmente, com centenas de milhares de soldados e ao longo desse muro colocaram minas antitanque e antipessoais que ceifaram milhares de vidas e continuam a ceifar vidas e causar vítimas diariamente.

Não vieram libertar ninguém, vieram ocupar e matar e roubar as nossas riquezas naturais de forma intensiva e selvagem porque sabem que mais cedo ou mais tarde terão que sair do nosso país e estão a roubar o máximo que podem, entretanto. Não existe liberdade de expressão, de movimento, de associação ou de imprensa, é a maior prisão a céu aberto do mundo. Não há liberdade, não há dignidade e não há justiça, porque para o ocupante marroquino os saharauis são cidadãos de terceira categoria, não têm direitos, e se falarem sobre o direito à liberdade do seu povo, são presos, violados e/ou presos.

Portanto, não vieram libertar ninguém, vieram isso sim, exterminar, roubar e encarcerar.

– Qual o papel da Mulher Saharaui na diáspora na Luta pela independência 

O nosso papel tem cada vez maior relevância, não estamos na luta armada como antes quando as mulheres tiveram que construir e reinventar um espaço nos campos de refugiados, mas continuamos presentes nas tarefas da educação, da sanidade, na administração. As mulheres na diáspora têm hoje outra tarefa outra luta, a luta não violenta. A luta não violenta pela independência do nosso país está presente nos territórios ocupados, nos campos de refugiados, mas também na diáspora onde as mulheres se têm destacado. Organizamos e participamos em manifestações, debates, conferências, exposições, sempre com o objectivo de tornar visível o conflito do Sahara Ocidental e a necessidade de alcançar a nossa independência e a paz, o nosso direito legítimo à autodeterminação de acordo com as resoluções das Nações Unidas e do Direito Internacional.

É a nossa tarefa romper o silêncio e não deixar o mundo esquecer os Saharauis e o seu direito inalienável à sua pátria. Esta denúncia está presente não só nos eventos organizados como no nosso dia a dia, no trabalho com os nossos colegas, na rua com pessoas que conhecemos, nos bairros onde vivemos. Tentamos que os meios de comunicação falem da nossa causa e assim quebrar o terrível silêncio que se faz da nossa causa e mantermos viva a chama da nossa luta que muitos gostariam de extinguir. As mulheres saharauis na diáspora têm que fazer-se ouvir, uma vez que as mulheres saharauis nos campos de refugiados e nos territórios ocupados não têm muitas oportunidades de serem ouvidas na arena internacional.

– Educar as crianças que vivem na diáspora, manter e transmitir as tradições é certamente um desafio. As crianças como se identificam ? Como Saharauis? 

Educar as crianças fora do seu país, da sua cultura não é uma tarefa fácil. É uma tarefa que precisa de muitos ingredientes. Primeiro há que referir que as crianças veem e aprendem as nossas atitudes, aquilo que fazemos e não tanto aquilo que lhes dizemos. Por isso para eu educar os meus filhos na minha cultura, no meu idioma, na tradição e história do meu país tenho que ser um exemplo. Desde pequenos que eu lhes ensino a história do meu país, a nossa realidade que é a sua realidade mesmo não tendo nascido no nosso país, e estarem  a crescer e a ser educados no estrangeiro. Têm que conhecer a nossa realidade, a nossa luta e eu tento lutar para que os meus filhos possam ver que eu luto por uma causa e eles fazerem a mesma coisa e sentirem a mesma coisa. De facto, os meus filhos desde muito pequenos vão comigo a todas as manifestações, levam a bandeira do Sahara, sabem o que significam as cores da nossa bandeira, porque eu faço questão de ensinar-lhes, de contar a história do nosso país, a luta do nosso povo e fazer com que eles sejam participantes activos desta luta e é essa a única forma de fazer-lhes sentir que esta luta também é deles mesmo tendo eles nascido e crescido longe da sua pátria.

O idioma, um factor cultural importantíssimo, não é fácil para uma criança que tenha nascida no estrangeiro onde fala e estuda noutro idioma tentar inculcar que tem que falar Hassania (Idioma Saharaui árabe) . Não chega apenas dizer que têm que apreender, a própria família tem que falar em Hassania em casa, mas vi que isso por si só não é suficiente. Penso que as crianças da diáspora têm que passar algum tempo das suas férias nos campos de refugiados para poderem de facto apreender o idioma e a cultura, rodeadas por crianças e adultos saharauis. Neste tempo de vivência da realidade nos campos de refugiados as crianças da diáspora apreendem de forma mais rápida e quase intuitiva não só o idioma, mas todas as tradições, os jogos, o dia a dia dos saharauis e as dificuldades de viver como refugiado.

Nós pais saharauis na diáspora temos que fazer estes esforços para que os nossos filhos criem estes laços com o seu idioma, a sua cultura e a sua realidade.

– Na sua opinião os jovens saharauis anseiam pela Independência do Sahara Ocidental? 

Não tenho dúvida nenhuma, todos os saharauis querem a independência do seu país. Marrocos não quer realizar o referendo de autodeterminação que tinha acordado e ratificado porque sabe que irá perder. Todos nós queremos a independência do Sahara, os jovens tanto como o resto da população, por isso se vê o envolvimento dos jovens nas actividades e protestos em todo o lado onde estamos presentes e muitas vezes são eles mesmos os organizadores e líderes destas iniciativas.

– Viveu em 4 culturas, saharaui, cubana, portuguesa e espanhola como mantêm a sua identidade saharaui? 

Tanto eu como muitos saharauis temos esta “riqueza cultural” a que fomos obrigados pelas circunstâncias da ocupação e do exílio. Mas longe de nos ter afastado ou fazer perder a nossa cultura saharaui na verdade, na minha opinião, reforçou a nossa identidade saharaui. Estes percursos e ida e vindas não se fazem por nossa opção ou decisão, mas sim pela realidade do conflito do Sahara Ocidental. Estas experiências reforçam e enriquecem a nossa identidade, solidifica mais a nacionalidade saharaui em nós.

No meu caso, estive aproximadamente uma década em cada sítio. Um pouco mais de uma década nos campos de refugiados, um pouco mais de uma década em Cuba, um pouco mais de uma década em Portugal, e quase há uma década em Espanha. Na realidade à medida que vivemos em cada uma das culturas vamos adquirindo coisas de cada uma delas, e com as coisas positivas que se apreendem em cada uma delas enriquecemos a nossa própria cultura. Eu pessoalmente quantos mais culturas conheço, mais países conheço, mais me apego à identidade e a cultura saharaui. Tento introduzir as coisas positivas das outras culturas e assim reforçar o pilar fundamental – a minha identidade saharaui.

– Médica e saharaui –  tem responsabilidades acrescidas? 

Muita responsabilidade acrescida, sou médica saharaui e a viver e trabalhar na diáspora. É uma responsabilidade a dobrar porque por um lado tenho o meu trabalho que desempenho em Espanha, mas às vezes estou em dois sítios ao mesmo tempo, isso acontece quase todos os dias. O meu telefone está a funcionar 24h para atender todas as “telemedicinas” (consulta via telefone) que recebo do deserto. Costumo dizer que estou de banco de urgência 24h por dia, 365 dias por ano. Portanto tenho a responsabilidade do meu trabalho aqui e a minha responsabilidade como médica do meu povo. Mas este não é só o meu caso, passa-se o mesmo com os meus colegas saharauis médicos e de outras profissões. Temos sempre uma responsabilidade acrescida e estamos sempre a pensar no nosso povo e como podemos ajudar. De facto, nós as mulheres saharauis que estudamos em Cuba temos uma associação humanitária na área da medicina para ajudar o melhor possível o nosso povo. Mas há muitas outras associações na diáspora e temos uma coordenadora de todas as associações.

– Dor de ausência e separação, é algo que sente diariamente? 

A dor de ausência é algo permanente na minha vida e na de qualquer saharaui. Não estamos bipartidos,  estamos repartidos 3 e 4 vezes, não por opção mas sim pelo conflito em que vivemos no Sahara Ocidental.

Estamos separados entre os campos de refugiados, os territórios ocupados, os territórios libertados e a diáspora. Lembro-me que tinha chegado há pouco tempo a Portugal e vi um programa de televisão de um reencontro de familiares que tinham perdido o contacto uns com os outros. Isso tocou-me, emocionou-me profundamente porque a minha situação é essa, a vida dos saharauis é assim, nascemos e crescemos separados, sem poder ver as nossas famílias. Qualquer saharaui tem familiares espalhados pelos diferentes sítios que não pode visitar ou ver, devido à ocupação. Identificamo-nos com todas as situações que estão relacionadas com a separação, um filme, uma entrevista, uma história, um artigo, fico a chorar. Eu tive que sair aos 12 anos da minha casa para viver mais de uma década longe de todos os meus familiares, para poder estudar e como eu centenas, milhares de saharauis andam de um país para o outro ou estão à espera de um ou outro lado do muro.

– Qual seria a sua tarefa em caso de haver um regresso à Guerra? 

Tenho esperança que não seja necessário voltar a luta armada e à guerra e que a solução pacífica acordada seja implementada.

Mas se isso não for possível e se regressamos à guerra estarei sempre ao lado do meu povo e da decisão tomada pela RASD. Nesse cenário, e como sou médica, provavelmente seria esta a minha tarefa como tem sido até agora, mas estou disponível para desempenhar outras tarefas se necessário, sem qualquer problema.