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Isabel Lourenço (PUSL).– Já não sabia há quantos anos estava naquela cela minuscula com um buraco no chão, bolor nas paredes, sujidade e insectos.

Os dias passavam, algumas vezes tinha comida outras não.

O buraco circular do tamanho de um pequeno passaro deixava entrar um raio de luz, por vezes uma brisa e os sons do exterior.

Mas os sons predominantes eram os das botas dos guardas, o abrir e fechar de celas com as suas portas de ferro pesadas e o raspar dos bastões dos guardas no corredor.

Ouvia gritos, daqueles que enloqueceram, daqueles que eram torturados.

Ao final da tarde instalava se o terror, os guardas vinham buscar os presos que iam ser fuzilados.

Por vezes enganavam o preso e iam com ele até ao meio do corredor para depois o levarem de volta à cela às gargalhadas.

Um dia entrou um passarinho na cela, o preso tinha fome mas não quis matar aquele ser inocente, gentilmente pegou nele e empurrou o animal para a liberdade através do buraco minusculo.

Os seus dias preferidos eram os que tinham vento.

Se o vento viesse da direcção certa conseguia ouvir o som de vozes de crianças e das suas mães a caminho ou à saída da escola.

Passou assim 14 anos, não o sabia só o soube depois, quando finalmente houve uma visita à prisão pela cruz vermelha.

Passou mais dez anos na prisão, em isolamento total a maioria do tempo.

Não foi na idade média foi no final do século XX, a duas horas de avião de Lisboa.

Ele saiu, mas muitos estão presos.
O seu crime é serem saharauis.

Não cometeram nenhum acto violento, não advogam a violência e simplesmente querem o seu direito de acordo com mais de 60 resoluções das Nações Unidas. A saída do ocupante militar marroquino que entrou em 1975 bombardeando a população saharaui.

A “liberdade” nos territórios ocupados é mais do mesmo, uma prisão a céu aberto.

Dadach não é conhecido na comunidade internacional, o seu sofrimento não originou discursos inflamados de revolta nem na ONU nem na UE.

Mohamed Dadach sobreviveu e continua o seu trabalho não violento, depois de sair da prisão continuou a ser torturado nas ruas dos territórios ocupados.

Marrocos não perdoa, Marrocos continua o exterminio.

Marrocos é um ocupante selvagem que não poupa nem sequer crianças.

Quando pensarem no destino das férias deste Verão, pensem que cada centimo gasto em Marrocos serve para oprimir um povo, paga as instalações onde são torturados, paga os policias, militares e para-militares que violam diariamente impunemente todos os direitos básicos de um povo.

Pensem bem antes de dizerem que os hoteis são baratos e as cores lindas.

As mesmas cores são apagadas para centenas de milhares com os vossos cêntimos.

Boas férias