O filho pródigo Marrocos não pode impor condições à África para voltar para casa

Owei Lakemfa

Owei Lakemfa

Marrocos: Um filho pródigo dita condições
Fonte: The News (jornal da Nigeria) / Por Owei Lakemfa*

Tradução porunsaharalibre.org

África, amada por Deus tem muitos filhos e filhas. Alguns deles do antigo Egito deram ao mundo a civilização moderna. Também deram à Grécia a sua filosofia que se tornou a base do pensamento ocidental e filosofia. No entanto, uma raça diferente da qual os nossos videntes nos haviam avisado, açambarcou e escravizou quase todas as crianças de África. Com dor e em lágrimas, com o nosso suor e sangue lutamos pela liberdade. Isso foi anos antes de toda a humanidade ter concordado que o direito de um povo à autodeterminação não é negociável.

Mesmo na aurora da liberdade, os filhos da África eram como ovelhas sem Pastor enquanto que os antigos senhores de escravos tentar continuar a nossa escravidão, desta vez, de forma indireta. Nessa altura, criamos dois grandes grupos. Alguns encontraram-se em Casablanca, Marrocos, e tornaram-se o Grupo de Casablanca; os outros tornaram-se o Grupo de Monróvia. os líderes visionários de África reuniram-se em Adis Abeba, na Etiópia e no dia 25 de maio de 1963, deu-se origem a um movimento unido dos povos africanos chamado Organização de Unidade Africana. Nós juramos que os africanos nunca mais seriam escravizados e que aqueles que ainda estavam em cativeiro, como a África do Sul, Angola, Moçambique, Namíbia, Zimbabwe, Guiné-Bissau e o Sahara Ocidental deveriam ser livres. Na verdade, apesar dos esforços dos escravizadores, tornaram-se livres. Todas as crianças africanas se tornaram livres, mas nós não tínhamos previsto que um dos nossos filhos proeminentes iria colaborar com os senhores de escravos estrangeiros para privar um de nós da sua liberdade.

A Mãe África tem sido generosa, providenciando para todos nós; grandes e pequenos, temos a nossa herança. Mas nosso irmão Marrocos decidiu, além disso, aproveitar a herança e riqueza do pequeno Sahara Ocidental. Primeiro foi conivente com os senhores de escravos espanhóis que privaram o Sahara Ocidental, da sua independência. Em seguida, Marrocos consegui que Espanha entregasse as riquezas do Sahara Ocidental a ele e ao seu irmão Mauritânia; ambos partilharam o saque. A Mauritânia reconsiderou e tirou as mãos do saque, que o ganancioso Marrocos açambarcou e adicionou à sua parte.

No entanto, África não admitiu tal cobiça e decidiu chamar o irmão Marrocos à ordem, para lhe lembrar que os povos africanos são um só e que os nossos antepassados proíbem roubar. Mas o teimoso Marrocos não concorda, e quando o resto da África acolheu nossos irmãos e irmãs saharauis à nossa casa comum, a União Africana, Marrocos não aceitou isso. Marrocos decidiu sair de casa e ir à caça com os antigos senhores de escravos. Alguns irmãos saíram com ele, mas quando chegaram à porta, voltaram-se para se juntar ao resto da família. Marrocos, apoiado pelos antigos proprietários de escravos, foi saquear os peixes, o fosfato e as riquezas dos saharauis. Brutalizou os saharauis, deteve alguns, destruiu suas casas, forçou alguns a irem para campos de refugiados, construiu um muro dividindo o território, e forçou o resto sob as suas botas de cano alto. Não prestou atenção à comunidade internacional, recusou-se a permitir o referendo que o resto do mundo decidiu que devia ser realizado para permitir que o Sahara Ocidental decidisse livremente se quer ser livre ou ser parte do grande irmão Marrocos. Num dos casos mais ridículos de violência, Marrocos capturou Aminatu Haider, uma nossas irmãs saharauis, e exilou-a para o território do ex-senhor de escravos. Se de fato os saharaui são marroquinos, como é que se exila um cidadão para um território estrangeiro?

Após trinta e dois anos a deambular no deserto e mantendo más companhias, o pródigo Marrocos decidiu voltar para casa. para a União Africana. Deve ter percebido que ele é não é ninguém fora da sua casa; que seus amigos estrangeiros jamais o irão tratar como um igual, caso sequer, estes amigos o considerem, como um ser humano. Nosso irmão, o rei Mohammed VI de Marrocos que nasceu três meses após a fundação da União, escreveu uma desmedida e insultuosa carta de 2.144 palavras anunciando que Marrocos está disposto a voltar. Ninguém vai impedir um tal retorno porque Marrocos é um filho perdido há muito tempo e a nossa casa é um património comum. É como uma ovelha perdida há muito tempo; por que não iria a África materna alegrar-se com a decisão do seu filho pródigo que decidiu refazer seus passos e voltar para casa? Porque enquanto o bíblico filho pródigo tinha remorsos, estava cheio de arrependimento e implorou por perdão, o filho pródigo marroquino é impenitente, arrogante e exibe as características de um bandido de rua.

Na carta em que anunciava a sua decisão de voltar para casa, referiu-se ao seu irmão saharaui, a República Árabe Saharaui Democrática, RASD (Sahara Ocidental) como um “estado fantasma”. Seu argumento ilógico é que a RASD, que é um filho biológico da África, não é membro da Organização das Nações Unidas (ONU). E daí? Como é que ser um membro da ONU é um critério para a condição de Estado? Durante décadas, a Suíça, uma das mais antigas repúblicas do mundo, não foi membro das Nações Unidas. Em qualquer caso, precisamos da certificação da ONU para determinar que os saharaui são integralmente de sangue Africano?

Marrocos apresentou um espetáculo de falsidade quando alegou que deixou a casa, porque não desejava criar uma divisão. A verdade é que a abandonou quando não lhe foi possível criar uma divisão. Marrocos quer adotar de novo as mesmas táticas, tentando induzir outros africanos com iscos económicos e monetários para expulsar ou suspender o Sahara Ocidental da nossa casa comum. Marrocos pode engolir o seu orgulho e voltar ao rebanho Africano, mas os saharaui nunca irão ser expulsos da casa do seu pai. África pertence a todos os africanos e nenhum Africano é superior a outro. Qualquer líder Africano, que apoia Marrocos por um prato de mingau ou devido a pressões dos antigos senhores de escravos para expulsar ou suspender o Sahara Ocidental da Casa Africana, deve saber que está a tentar quebrar e destruir a união dos povos africanos. Essas pessoas serão os inimigos do povo africano e inimigos da justiça social. Não podemos permitir que a lei da força prevaleça sobre o direito no nosso continente. Todos aqueles que compartilham o saque do Sahara Ocidental, sejam eles estrangeiros ou africanos, acabarão por ter que prestar contas sobre a sua ganância.

Quando os líderes como o presidente Muhammadu Buhari e o Dr. Julius Nyerere (que presidiu) se sentaram na União Africana há trinta e dois anos e decidiram admitir a RASD para a União, fizeram-no porque era do interesse fundamental da África. Tomar uma ação diferente hoje, é trair esses líderes, pôr em perigo a saúde da mãe África e hipotecar o futuro do nosso continente e crianças. Se o filho pródigo não respeitar os princípios básicos e o amor fraternal que liga toda a África, é livre para continuar a deambular pelo deserto. O filho pródigo Marrocos não pode impor condições à África voltar para casa.

* Owei Lakemfa, é jornalista, sindicalista, activista dos direitos humanos, escritor e historiador do movimento laboral. Colabora com vários jornais de grande circulação em África

Ayúdanos a difundir >>>