Jacob Mundy: “A União Africano pode ter semeado as sementes de sua própria destruição”

Jacob Mundy

Fuente: NOTICIAS DEL SÁHARA  / Zine Cherfaoui زين شرفاوي – Traduzido ao Espanhol por  Pasqual Luis Riquelme -Editado por Maria Piedad Ossaba

A União Africana (UA), aprovou a 31 de Janeiro a adesão de Marrocos, que não colocou qualquer condição para a entrada. Qual é o interesse estratégico desta associação para Marrocos e para os membros da UA? Jacob Mundy, um professor da Universidade Colgate em Nova York e um especialista sobre a questão do Sahara Ocidental, dá algumas respostas.

A União Africana (UA) acaba de aceitar a adesão de Marrocos. Na sua opinião, por que o rei Mohammed VI quis aderir à organização pan-Africana?

Eu acho que o regime marroquino percebeu o  fracasso da sua estratégia de boicote. Esta, simplesmente não funcionou. Marrocos queria que a RASD (República Árabe Saharaui Democrática) fosse expulsa da UA quando um número suficiente de Estados Africano tivesse “suspenso” o seu reconhecimento. Isto não só não aconteceu, mas, legalmente, é também impossível. A UA não tem nenhum mecanismo para expulsar um membro.

Além disso, politicamente, teria também destruído a UA, como eles alertaram claramente países como a Argélia, Nigéria e África do Sul. Alguns argumentam que Marrocos vai lidar diretamente com a RASD agora, em vez de através Argélia e enviado especial da ONU. Mas isso é uma ilusão. Como é o caso com Israel e o Estado palestino nas Nações Unidas, Marrocos vai continuar a recusar-se a reconhecer a RASD e aproveitar todas as oportunidades para exigir a sua expulsão do UA.

Marrocos sempre condicionou a sua adesão à UA com a exclusão da RASD. Por que razão renunciou agora a esta exigência?

Uma vez que o regime marroquino concordou em juntar-se a UA corresponde a esta organização provar a sua sinceridade. A intenção de Marrocos era incorporar-se na UA ou obter a expulsão dos saharauis? Mais uma vez, acho que o Marrocos ingenuamente acreditava que tinha apoio suficiente do seu lado para derrubar a RASD. Esse apoio é particularmente forte no bloco de estados alinhados com os interesses franceses. Mas Rabat não avaliou as consequências jurídicas e políticas de uma suposta expulsão  da RASD.

Além disso, acho que  Marrocos prefere  a destruição da UA a um Sahara Ocidental independente, como fez Hassan II, que quase destruiu a OUA em 1983-1984 para evitar que a RASD se tornasse membro da organização. Portanto, Marrocos confronta-se com um dilema: aceitar ser um membro da UA, sem a expulsão da RASD ou admitir que o interesse de Marrocos na UA é simplesmente expulsar a RASD. A única maneira que Mohamed VI tinha de salvar a face era juntar-se à UA.

O serviço jurídico da UA expressou reservas sobre o pedido de adesão de Marrocos. Foi sábio por parte dos membros da UA ignorar dessas reservas?

As questões legais parecem ter sido subordinadas à política e talvez até mesmo à economia, uma vez que Mohamed VI tem  comprado influência em África nos últimos anos através de projectos de investimento e desenvolvimento. As aspectos levantadas por estas questões jurídicas são muito importantes. A UA admitiu um novo Estado membro que ocupa e coloniza outro Estado-Membro. Ou seja, Marrocos viola os princípios fundamentais em que a UA se baseia.

E não se esqueça de que Rabat e a imprensa marroquina atacou a OUA e a UA durante anos, recusando-se a cooperar ou a reconhecer o enviado da OUA / UA na MINURSO (o plano de paz de 1991 para o Sahara Ocidental foi um plano conjunto da ONU-OUA). Mais uma vez, acho que algumas vozes dentro da UA são ingênuas se  pensam que [a adição de Marrocos] vai levar a um maior diálogo entre o regime marroquino e a RASD. Ao ignorar estas questões jurídicas (e admitir um novo Estado cuja estratégia é a confrontação em vez de cooperação e reconciliação), a UA poderá ter semeado as sementes da sua própria destruição.

O Congresso Nacional Africano (ANC) acaba de publicar um comunicado de imprensa em que lamenta a admissão de Marrocos na UA. Como  vê a coexistência dentro da UA entre os países oponentes à adesão de Marrocos e os amigos de Marrocos … e, possivelmente, entre Marrocos e a RASD?

Eu acho que as tensões entre os Estados não-alinhados e o bloco pró Francês  só vão aumentar nos próximos anos. Marrocos optou pela persistência dos problemas internos enfrentados pelos países-chave, como a Argélia, África do Sul, Zimbabwe e Nigéria para promover os seus interesses no seio da UA.

Na verdade, o discurso de Mohamed VI à UA foi um ataque aberto às ideias desenvolvidas pelos não-alinhados e no Terceiro Mundo. Portanto, é evidente que o Marrocos chegou à UA, em primeiro lugar, como um campeão do capitalismo financeiro neoliberal e, por outro, para tentar expulsão a RASD a todo o custo.

Muitos observadores argumentam que Marrocos vai tentar paralisar ou dividir a UA para torpedear a questão do Sahara Ocidental. Pensa que é isso que vai acontecer ?

Eu acho que eles estão certos. Marrocos beneficiará da UA, porque é uma instituição um pouco frágil e alguns dos seus membros são facilmente corruptíveis. Marrocos acaba de sofrer uma pesada derrota no Tribunal de Justiça da União Europeia, que decidiu que Marrocos não tem o direito de explorar economicamente o Sahara Ocidental, porque não é um território marroquino.

Marrocos também é amplamente considerado como a parte obstrucionista da paz da ONU, ao ter reagido de forma exagerada, ao expulsar o pessoal da MINURSO após o reconhecimento por Ban Ki-moon do “ocupação” do Sahara Ocidental.

Assim como ninguém acredita que Netanyahu é sério sobre uma solução de dois Estados na Palestina, não se acredita que Mohamed VI seja sério na sua proposta de “autonomia”. Assim Marrocos está a perder terreno na UE e nas Nações Unidas, mas está progredindo em África.

Como vê o futuro da UA e a questão do Sahara Ocidental nesta nova situação?

Haverá mais conflito e animosidade dentro da UA, Marrocos é agora capaz de usar a instituição em seu esforço para enterrar os direitos dos saharauis. O verdadeiro teste para a UA é se seus Estados-Membros irão forçar Marrocos a tratar a RASD como um igual estando sentados juntos na mesma sala.

Em vez de ver instituído um diálogo, acredito que a UA vai começar a se parecer com a OUA entre 1979 e 1984, quando Marrocos e seus aliados interrompiam frequentemente asreuniões , produzindo motins e impedindo a realização de cimeiras. Marrocos quase destruiu a OUA devido à questão do Sahara Ocidental, mas os líderes africanos escolheram a unidade continental acima dos interesses de um único Estado. Há uma expressão que se encaixa nesta situação: “Engane-me uma vez, a culpa é tua, engana-me duas vezes e a culpa é minha”.

 

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