Said Ameidan: A minha vingança é a denúncia

Por Isabel Lourenço / Jornal Tornado

Said é um jovem calado e educado, com tristeza nos olhos mas um sorriso fácil, tem uma voz suave e conta em tom baixo a sua história uma mais num role sem fim de sofrimento do povo saharaui.

“O meu maior sofrimento não são as minhas torturas ou o facto da prisão dos meus irmãos, o meu maior sofrimento é o sofrimento da minha mãe. Isso é o que me entristece.”

Quem não conhece os saharauis não ira entender a profundidade deste sentimento, para os saharauis uma mulher é intocável, a violência contra as mulheres é inaceitável, nesta sociedade.

Said foi detido com 17 anos dentro da Escola Secundária, as autoridades de ocupação entraram no edifício para reprimir um protesto pacífico dos estudantes saharauis que são objecto de discriminação e insultos constantes dentro das salas de aulas. No recinto da Escola espancaram-no até sangrar da cabeça, foi torturado durante um dia e solto em seguida, mas por pouco tempo, passado um mês já estava de novo nas mãos do verdugo a ser torturado, 4 dias de detenção arbitrária.

A casa da sua família foi invadida pelas autoridades por duas vezes na sua ausência. Numa delas espancaram toda a família, mulheres, crianças e jovens.

“o meu irmão pequeno estava escondido no armário e por uma fresta viu tudo como os torturaram até estarem todos sem se mexerem no chão, cobertos de sangue, começou a chorar baixinho e quase foi descoberto pela policia.”

Na segunda vez arrastaram a mãe de Said pelos cabelos até à escada e atiraram-na, mais uma vez teve fracturas.

A realidade de Said é de muitos saharauis, torturas, detenções arbitrárias, sequestros e invasões domiciliárias. Violência constante, traumatizante e sistemática de um regime de opressão.

Não pergunto que torturas sofreu, há mais de uma década que registo as torturas são um sem fim de horror que se pode comprar à inquisição. Em várias ocasiões oiço “e depois a policia e a gendarmaria discutiram que me ia torturar…” Que país? que seres humanos são estes que disputam o direito da tortura? Que instituições, que valores existem neste Reino de Terror?

Said, não quer vingança física:

” isso não me vai resolver nada, pode dar-me satisfação imediata mas não vai mudar nada no meu futuro, continuarei a sofrer, a minha vingança é a denúncia por isso decidi ser jornalista, romper o silêncio…”

Said quer romper o silêncio, diariamente com a consciência que a qualquer minuto pode ser atirado para o calabouço como o seu irmão que está a centenas de km numa prisão marroquina. O meu irmão sofre mas é esse o nosso destino por lutarmos pela nossa independência, é o sofrimento da minha mãe que não suporto, a distância que tem que percorrer para visitar o seu filho, levar-lhe comida, e por vezes não poder entrar porque lhe recusam a visita de forma arbitrária.

Said quer romper o silêncio e nosso dever é ajuda-lo, escuta-lo e falar deste povo, os saharauis, a última colónia de África.

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