Ahmed Brahim Ettanji: “A nossa aposta contra a violência marroquina é agir pacificamente”

heraldo.es Gervasio Sánchez.- Ahmed Brahim Ettanji (1988) nasceu em El Aaiún e é presidente da Equipe Media, um meio que tenta romper o bloqueio das informações marroquinas.

Quando e porque a Equipe Media, a organização de comunicação que você dirige no Sahara Ocidental, foi fundada?

Em 2009, há dez anos, com o objectivo de superar o bloqueio de informação imposto pelas autoridades marroquinas que ocupam a nossa terra. Somos um grupo de ativistas, jornalistas e juristas.

Você recebe ajuda financeira européia ou espanhola?

Recebemos câmeras e computadores como doações e ajuda financeira de uma organização sueca para filmar um documentário intitulado “Três Câmeras Roubadas”, que ganhou vários prêmios em festivais internacionais. Existem leis marroquinas que criminalizam o financiamento externo.

Como vivem nos territórios ocupados pelo Marrocos?

É um inferno diário sob um bloqueio militar e policial permanente cujo principal objetivo é abortar qualquer protesto em favor da independência. Nós sofremos incursões contínuas, marginalização social e laboral. Desde 2005, mil militantes saharauis foram presos, milhares de pessoas sofreram tratamento desumano e degradante e tortura, e cerca de vinte cidadãos foram assassinados.

Você trabalha com jornalistas estrangeiros?

Tentamos ajudar os estrangeiros querem recolher informações e precisam de trabalhar em clandistinidade. Também preparamos material audiovisual e reportagens jornalísticas para os meios de comunicação internacionais.

Você já foi preso? Qual foi o tratamento recebido?

Eu fui detido mais de quinze vezes na minha vida. Os golpes e pontapés são permanentes e eles sempre nos mantêm vendados em lugares clandestinos. A alguns detidos arrancaram as unhas e outros foram estuprados com paus ou garrafas de vidro. Essas torturas foram denunciadas durante os julgamentos, mas os procuradores marroquinos sempre agem como cúmplice do Estado e nunca abrem uma investigação.

Existe a probabilidade que os jovens saharauis querem usar armas a curto prazo?

O nosso compromisso contra a violência marroquina sempre foi agir de forma pacífica. Desde o cessar-fogo decretado em 1991, sempre manifestamos sem violência, mas é verdade que alguns jovens se sentem silenciados pela comunidade internacional e prefeririam pegar em armas novamente.

O Tribunal de Justiça da União Europeia acaba de decidir que nenhum acordo comercial com Marrocos pode incluir o Sahara Ocidental sem o consentimento dos saharauis. É um triunfo para vocês?

Foi uma grande vitória. De acordo com o direito internacional, é um território colonizado pela Espanha e ocupado por Marrocos. Mas a França e a Espanha atuam como seus principais apoiadores perante a União Européia.

Portanto, não há diferença entre as políticas da Espanha e da França?

Nenhuma. Todas as decisões tomadas pelos dois países prejudicaram o povo saharauí durante décadas. Na última visita a Marrocos, o ministro das Relações Exteriores, Josep Borrell, endossou e defendeu os acordos de pesca, apesar de sua ilegalidade. Na votação do Parlamento Europeu sobre este mesmo assunto, a Espanha desempenhou um papel muito eficaz como advogado de um país torturador.

Houve progresso desde a nomeação do ex-presidente alemão Horst Köhler como enviado especial da ONU para o Sahara Ocidental?

Conseguiu, com o apoio dos Estados Unidos, iniciar um novo ciclo de negociações diretas entre Marrocos e a Frente Polisario em Genebra em dezembro passado, com uma segunda ronda prevista para o mês de março deste ano. Pressionou Marrocos a se apresentar com um plano alternativo à proposta de autonomia já reiterada. Por outro lado, a política externa espanhola muitas vezes tem gestos de cumplicidade com um país que ocupa ilegalmente um território e sistematicamente viola os nossos direitos. Qualquer referência ao conflito saharaui é omitida nos contactos com Marrocos.

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