Mohamed Bourial, preso político saharaui inicia greve de fome

PUSL.- A família de Mohamed Bourial informou que este preso político do grupo Gdeim Izik iniciou uma greve de fome hoje.

Mohamed Bourial detido em Tiflet2 exige que seja transferido para uma prisão perto da sua família em El Aaiun, respeito pelos seus direitos fundamentais, fim de todos os maus-tratos, do isolamento e atenção médica.

Em Tiflet2, os presos saharauis estão sujeitos a confinamento prolongado, assédio, maus-tratos e os seus direitos básicos não são respeitados. As Famílias confrontam-se com grande dificuldades para visitá-los uma vez que Tiflet fica a mais de 1300 km de El Aaiun.

Tiflet2 é conhecida como uma das piores prisões de Marrocos, onde muitos presos só saem de lá num caixão, muitas vezes referido como o Guantánamo de Marrocos.

Em 7 de maio de 2018, Bourial foi transferido da prisão de Kenitra para Tiflet2, onde estava em confinamento prolongado num bloco com criminosos entre eles presos com problemas psiquiátricos sendo atacado por um desses presos com uma faca.

Em 11 de julho de 2018, ele foi transferido da prisão de Tiflet2, para Bouzakarn por um período de 93 dias para depois retornar a Tiflet2, onde os maus-tratos continuam.

Bourial fez várias greves de fome longas e seu estado de saúde está muito enfraquecido.

Mohamed Bourial

Nascido em 1976, Mohamed Bourial foi membro do Comitê de Negociações Gdeim Izik, o acampamento de protesto pacífico que em Outubro/Novembro de 2010, reuniu mais de 30.000 saharauís nos arredores de El Aaiun, nos territórios ocupados do Sahara Ocidental por quase um mês antes de ser brutalmente desmantelado pela ocupação marroquina e as suas forças armadas, e que nos dias seguintes detiveram e torturaram centenas de saharauis.

O Grupo Gdeim Izik foi julgado em 2013 por um tribunal militar num processo reconhecido como nulo e ilegal pela comunidade internacional, onde as sentenças variaram de 20 anos a prisão perpétua para 21 dos 24 do grupo inicial. Em 2017, após o tribunal supremo marroquino ter declarado que as provas eram insuficientes e o julgamento militar nulo, houve um julgamento civil.

Em 2010, após o desmantelamento do campo, Mohamed Bourial foi detido e brutalmente torturado durante cinco dias, depois continuou a ser torturado durante meses. Uma das torturas denunciadas durante o julgamento em Rabat, em 2013, foi ser amarrado a uma “grade”, eletrocutada por 16 horas e regado com água fria na presença do torturador Bou Astiya. Bourial esteve detido durante quatro meses em confinamento solitário.

Após as torturas, Bourial assinou confissões de maneira forçada, como denunciou perante os tribunais.

Durante a nona sessão do julgamento, em 16 de fevereiro de 2013, no tribunal militar de Rabat, Mohamed Bourial declarou:
“Eu sou inocente, simpatizo com todas as vítimas de Gdeim Izik, estou aqui porque defendemos a independência … Somos inocentes! Estamos detidos porque lutamos pela nossa independência de uma forma pacífica.”

Testemunho de Mohamed Bourial em 20 de março de 2017 no tribunal de Salé, Rabat:

Mohammed Bourial foi o terceiro a declarar na segunda-feira, 20 de março, no caso de Gdeim Izik. Bourial começou o seu testemunho explicando como era o acampamento de Gdeim Izik. Gdeim Izik era um movimento que consistia de milhares de saharauis que construíram tendas no deserto e tinham exigências sociais. Bourial era o chefe do comitê de diálogo e explicou como esse comitê e o governo chegaram a um acordo dois dias antes do desmantelamento. Esperava-se que o Ministro do Interior chegasse ao campo com 9 tendas para organizar um recenseamento da população, para que o governo pudesse responder às exigências propostas pela população saharaui. O governo não cumpriu a sua promessa, e as pessoas no campo ficaram surpresas com o ataque, que ocorreu ao amanhecer.

Bourial disse: “O acampamento de Gdeim Izik revelou a política do ocupante marroquino e a maneira como eles marginalizam a população do Sahara Ocidental e roubam os nossos recursos”. Gdeim Izik é o resultado da marginalização de todos os saharauis pela ocupação do Marrocos no Sahara Ocidental, o acampamento durou 28 dias, não houve crimes ou violência, e o ocupante marroquino atacou mulheres, crianças, idosos e homens a 8 de novembro 2010.
Bourial negou todas as acusações e afirmou que “aquele que deve ser julgado, é aquele que ordenou o ataque contra o acampamento de Gdeim Izik, não nós”.

Bourial contou como, em 7 de novembro de 2010, o chefe de polícia de El Aaiun se aproximou dele e disse: “Eu prendi Naama Asfari hoje à noite, amanhã é a tua vez.” Ele respondeu que Asfari já tinha sido capturado naquela altura, pelo que dar ordens era quase impossível. Em 8 de novembro, Bourial foi preso pela polícia e levado para a esquadra, onde ficou detido durante cinco dias e torturado o tempo todo. “Fui torturado, em frente ao juiz de instrução!” denunciou Bourial.

Bourial invocou o direito de permanecer em silêncio quando a parte civil levantou questões, já que a parte civil o privou da presunção de inocência. O advogado de defesa foi interrompido constantemente tanto pela parte civil como pela acusação, o Procurador Geral do Rei levantou-se várias vezes e bateu no microfone. Bourial denunciou que todos os documentos são falsos e que ele não sabia o seu conteúdo até ao momento em que foi julgado no tribunal militar de Rabat em 2013. Ele denunciou que todas as confissões foram assinadas sob coação.

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