As vozes do deserto

PUSL.- Chegam aos poucos mas são milhares. Uns já estão em Espanha outros irão chegar nos próximos dias.

Pequenos embaixadores do Sahara Ocidental, crianças que nasceram e crescem nos campos de refugiados no sul da Argélia, assim como os seus pais aí nasceram e cresceram e os seus avós construíram um país em exilio no meio do deserto da morte.

Passaram mais de 4 décadas de exilio, mais de 4 décadas de ocupação marroquina.

Aqui nos chegam à Europa estes pequenos saharauis, caras inocentes e sorridentes mas também muitas vezes com lágrimas que passam algumas semanas longe dos campos de refugiados e ficam a conhecer o “primeiro mundo”.

Famílias e instituições acolhem as crianças e fazem promessas, esforçam-se para lhes proporcionar aquilo a que nós no primeiro mundo achamos que é necessário para ter uma infância feliz.

Bonecas, carros de brincar, jogos de computador, roupas, comida variada, parques de diversão, idas à piscina. E assim tentamos em poucas semanas colmatar a falha de anos para com este povo.

Um penso rápido, que permite a muitas crianças terem revisões médicas e tratamentos essenciais à sobrevivência.

Transmitimos uma realidade que de facto não é real, a ilusão de uma Europa próspera e um continente de mel e leite, de abundância e felicidade.

Um pouco como fazemos quando regressam os nossos familiares emigrados, oferecendo-lhes o que não consumimos durante o resto do ano.

Levamos estas crianças a Câmaras Municipais na esperança de despertar a opinião pública para um conflito esquecido. Espanha é a única culpada da situação vivida por estas crianças, os seus pais, os seus avós.

Colonizou o Sahara Ocidental, chamou-lhe província 53, disse que este povo era espanhol e forçou a nacionalidade espanhola, a documentação espanhola a um povo inteiro, para em seguida se retirar cobardemente ao coberto da noite e entregar de bandeja crianças, mulheres e homens saharauis e um território riquíssimo a Marrocos que invadiu sem oposição o Sahara Ocidental e iniciou o genocídio.

Estas crianças que são acolhidas e disfrutam de algumas semanas de “vida normal” nunca viram o seu país, nunca viram as riquezas do Sahara Ocidental, nunca viram muitos dos familiares que vivem do outro lado do muro de separação militar marroquino (2720km de extensão).

Ouvimos os seus relatos de como vivem nos campos de refugiados, as crianças não sabem que não é suposto serem felizes mesmo nas condições mais adversas e por isso falam com alegria das suas casas, das suas escolas, amigos e familiares.

Sim vivem no exilio, no deserto, uma existência de sobrevivência, mas rodeados de um carinho e amor incalculável que só quem visitou os campos de refugiados pode entender.

É bom receberem bonecas, é bom irem à piscina e ao parque de diversão, mas o que estas crianças realmente necessitam é regressar à sua terra. O que necessitam é de um país independente, soberano, livre de ocupação e terror.

O que elas necessitam é de poder abraçar os seus primos nos territórios que agora estão ocupados e dar-lhes a boa noticia, que Marrocos partiu que o regime de apartheid terminou que podem andar na rua sem medo.

Estas crianças irão encher de alegria muitas casas em Espanha, e se as famílias de acolhimento de verdade, gostam destas crianças como dizem, então a sua missão máxima é não esquecer o rosto da criança que tiveram em sua casa. Saberem que aquele rosto foi o rosto de um embaixador e que representa muitos rostos.

É missão máxima durante todo o ano serem activos, denunciarem e implicarem-se em acções que pressionem Espanha a finalmente cumprir o seu papel e ajudar os seus “ex-compatriotas” a alcançarem uma paz verdadeira.

É essencial adicionar à solidariedade de cariz humanitário a solidariedade e empenho politico que levarão à independência deste povo e ao fim da necessidade de ajuda humanitária extrema.

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